Autônomos: Futebol aguerrido e solidário
Cartolas, novas arenas, altos salários, ações de marketing esses e outros elementos do futebol moderno, passam bem longe e são visto sob olhares críticos por um time da várzea do futebol paulistano. O “Autônomo F.C” time que une o tradicional futebol jogado na várzea com ideologias políticas. Em entrevista respondida coletivamente, o Autônomos deixa claro o amor pelo “bom e velho futebol” jogado de maneira “solidária e aguerrida”. Criado em 2006, o time surgiu da união de amigos que compartilhavam a vontade de jogar e afinidades ideológicas próximas, o autônomos é uma referência direta ao movimento autonomista, surgido na Europa no século passado. Conheça, na entrevista abaixo, um pouco mais deste time que é uma das referências da união do futebol e ação política. Qual a diferença da forma como vocês jogam para o futebol tradicional? No modo de jogar não há muitas diferenças para os demais times. Ao contrário da maioria, não temos diretoria, somos responsáveis pela própria gestão do clube e temos de nos organizar para isso, desde definir semanalmente quem lava os uniformes, a marcação de jogos, inscrição em eventuais campeonatos e administração do caixa e das contas mensais. Como se trata de um time de amigos, de nenhum bairro específico e sem patrocínio de nenhuma espécie, precisamos contribuir mensalmente para pagar o campo onde jogamos (cujo preço é gritantemente inferior ao aluguel de uma quadra society), repor uniformes, outros materiais necessários etc. Dentro de campo, sempre tivemos a proposta de nos afirmar como mais um time na várzea, organizado e capaz de enfrentar outros times de igual pra igual. Temos dois quadros, e um deles conta com técnico há um bom tempo, além de ja termos tido outros anteriormente. Ainda assim, todos costumam discutir e opinar sobre as formações e decisões técnicas relativas aos jogos. Em suma, gostamos do bom e velho futebol, de preferência solidário e aguerrido. Qual critério pra entrar no time? Basicamente, a camaradagem. A maioria dos que jogam no time veio por meio de algum amigo que já jogava. Claro que existe uma junção de princípios políticos e sociais libertários, igualitários etc., de modo que quem vem de fora não tem muita dificuldade em compreender o caráter ideológico do Auto. Dentro disso, não há uma linha estrita de posicionamento político, mas obviamente nos colocamos à esquerda. Em geral, quem traz alguém para o time já enxerga esse tipo de afinidade, mas também chegam amigos mais interessados apenas em jogar futebol num ambiente legal, de amigos. Nem todos tem um grau de politização elevado, alguns tiveram contato com atividades políticas a partir de quando chegaram ao time, outros já estão mais acostumados a viver isso no cotidiano, enfim, não é absolutamente homogêneo, mas compartilhamos diversos valores importantes nesse âmbito. No mais, é como em qualquer outro time: você chega, se apresenta, conhece o pessoal e espera a vez de entrar em algum jogo. O Autônomos tem uma atuação para além do futebol? Discussões ou ações políticas? Tem. Na medida do possível, e da nossa própria capacidade, sempre tivemos discussões políticas e acompanhamos algumas pautas em voga na nossa cidade. Costumamos comparecer em manifestações de movimento social, a exemplo daquelas de 2013 pelo passe livre e diminuição da tarifa, manifestações de sem teto, pela desmilitarização da polícia, em favor da causa palestina, entre outras pautas que consideremos justas. Alguns dos nossos participaram também do Comitê Popular da Copa, das manifestações, até pelo fato de que nesse caso específico nossas questões iam além de todos os absurdos realizados em favor da Copa em si. Isso porque também temos uma série de críticas a respeito do futebol atual e sua incessante mercantilização, que agora promove uma elitização do próprio jogo, do acesso ao estádio e até de alguns clubes historicamente populares. Um processo que de certo modo se estende à várzea, através de projetos de instalação de grama sintética, entre outras mudanças no ambiente dos campos, que no fim das contas reproduzem o mesmo processo de aumento dos custos para jogar e uma ameaça de reconfiguração de tais espaços – claro que existem interesses políticos e econômicos também nessa seara, ainda que em proporções bem mais modestas que as do futebol profissional. Recentemente, organizamos oficialmente um grupo político interno, a fim de debater com mais calma e reflexão esses assuntos extrafutebolísticos, uma vez que não é possível fazer isso seriamente aos sábados com o ambiente dos jogos e da diversão que todos esperam durante a semana. Isso significa que ainda estamos em processo de amadurecimento e crescimento político, a fim de nos tornarmos mais organizados politicamente e participantes daquilo que consideramos urgente na vida e na sociedade. Também já chegamos a ter uma sede própria, que é a Casa Mafalda, espaço autônomo que reúne alguns coletivos libertários, realiza atividades políticas, grupos de estudo, shows de bandas afinadas ao local e assim por diante. Hoje, o espaço já não conta com a participação oficial do Auto, ainda que alguns de seus membros sigam participando. |