“O último reduto masculino na sociedade moderna”, destaca pesquisadora sobre o futebol

IMG_2895_2Com tarde dedicada ao debate sobre o lugar e a luta das mulheres no futebol, evento pauta o reconhecimento e a visibilidade do futebol feminino em seu primeiro dia

A afirmação do sociólogo Eric Dunning foi destacada durante a explanação da pesquisadora e ex-jogadora Heloisa Helena Baldy dos Reis. A ex-atleta do Guarani Futebol Clube, na década de 80, sintetizou as principais reflexões trazidas nas três mesas de debate que abordaram o universo do futebol feminino e suas perspectivas no primeiro dia do II Encontro de Futebol e Cultura.

Para Heloisa Helena, por ter sido criado por homens e para os homens, a profissionalização feminina no futebol é um direito que vem sendo negado às mulheres brasileiras por mais de um século. “Estamos falando de mulheres que querem seus direitos sociais garantidos pela Constituição num país hegemonicamente masculino e machista. São mais de 130 anos acreditando que os impedimentos à prática do futebol estão relacionados a apenas supostas limitações das mulheres”, comenta.

A tarde contou ainda com a participação da também ex-atleta Aline Pellegrino, cuja trajetória – enquanto ícone da seleção brasileira – ao lado de outras companheiras, também atletas de ponta, foi fundamental no processo de idealização da iniciativa Guerreiras Project, composta por atletas, artistas, acadêmicas e ativistas que realizam oficinas, sessões de formação e pesquisa que visam ampliar os espaços de reflexão sobre temáticas ligadas a assuntos de gênero.

Aline retoma sua história para destacar a importância do debate de gênero nos processos de transformação do futebol feminino, que em sua avaliação, como apontado pelo nome da mesa, se encontra atualmente – de fato – entre “o descaso e a esperança”.

“Eu aprendi na Copa do Mundo de 2011 e constatei, posteriormente, nas Olímpiadas de 2012 que a questão de gênero é maior do que títulos e conquistas, é maior do que qualquer coisa. Eu tenho certeza que se o ano que vem a gente ganhar a medalha olímpica de ouro não vai mudar o cenário do futebol feminino, aliás, não é uma medalha de ouro que vai mudar as questões de gênero, a cultura do nosso país”, ressalta.

A necessidade de se criar espaços que promovam a reflexão sobre os processos discriminatórios sofridos pelas jogadoras foi pautada pela experiência de Priscila Gomes Dornelles. A professora da Universidade do Recôncavo da Bahia trouxe a perspectiva de jogadoras da cidade Amargosa, localizada no interior da estado, a 230 km de Salvador. Tais mulheres, reconhecidas no município como atletas, jogadoras do futebol, tiveram sua prática impactada de diferentes maneiras por conta da questão de gênero, conta Priscila.

“Muitos foram os relatos coletados sobre dificuldades para conseguir transporte e acesso a materiais básicos, como uniforme. Enfim, não necessariamente uma mulher que joga futebol, por exemplo, pode assumir e compreender o seu papel como protagonista e nem compreender como essa sociedade provoca desigualdades na relação entre homens e mulheres, provoca desigualdades inclusive no acesso a modalidade. Exatamente, por isso, essa formação em gênero é importante para que as pessoas possam praticar o futebol sem tantas desigualdades”, salienta.

Museu do Futebol e a visão de memória relacionada ao futebol

O desafio de construção da exposição Visibilidade para o Futebol Feminino foi o mote de Daniela Alfonsi, diretora de conteúdo do Museu do Futebol, para refletir sobre a atual conjuntura do futebol feminino.

Pensada a partir da demanda dos frequentadores do Museu, a exposição buscou reestruturar a narrativa do futebol construída pelo equipamento, evidenciando outras conquistas, valorizando o lugar da participação feminina no esporte mais popular do país.

“Depois de ouvir o nosso público, iniciou-se um longo caminho, uma trajetória para suplantar a ausência de fontes. É muito difícil encontrar informação organizada sobre a história das mulheres no futebol e sabemos bem as motivações para isso. A solução? Foram as parcerias, seria impossível para o Museu construir essa exposição sozinho. Por isso, por meio de uma curadoria compartilhada com as protagonistas dessas histórias, organizamos grandes achados, acionando as próprias atletas”, explica.

Confira mais informações sobre a exposição Visibilidade para o Futebol Feminino pelo site: http://futebolfeminino.museudofutebol.org.br/. O público pode conferir o acervo até o dia 30 de março de 2016.

O II Encontro de Futebol e Cultura é um evento realizado pela ONG Ação Educativa em parceria com o Museu do Futebol, Instituto Esporte Mais, apoio do Governo do Estado do Ceará e patrocínio da Petrobrás. Já em sua segunda edição, encontro desponta como espaço de diálogo entre diversas experiências de futebol colaborativo e solidário de todas as regiões do país.

Deixe uma resposta

Desenvolvido com WordPress | site criado pela